31 de jan. de 2017

RESENHA|| DIAS PERFEITOS



Título: Dias Perfeitos
Autor: Raphael Montes
Editora: Companhia Das Letras
Páginas:280
Ano: 2014
                                                                                 
Avaliação: 

Sinopse: Téo é um solitário estudante de medicina que divide seu tempo entre cuidar da mãe paraplégica e examinar cadáveres nas aulas de anatomia. Durante uma festa, ele conhece Clarice, uma jovem de espírito livre que sonha tornar-se roteirista de cinema. Ela está escrevendo um road movie sobre três amigas que viajam em busca de novas experiências. Obcecado por Clarice, Téo quer dissecar a rebeldia daquela menina. Começa, então, uma aproximação doentia que o leva a tomar uma atitude extrema. Passando por cenários oníricos, que incluem um chalé em Teresópolis e uma praia deserta em Ilha Grande, o casal estabelece uma rotina insólita, repleta de tortura psicológica e sordidez. O efeito é perturbador. Téo fala com calma, planeja os atos com frieza e justifica suas atitudes com uma lógica impecável.


Acredito que nunca tenha engolido um livro ferozmente, como me ocorreu com a obra Dias perfeitos, segundo livro do autor Rapahel Montes, publicado em 2014 pela editora Companhia Das Letras. Estava a procura de um livro que me tirasse da zona de conforto, e que me levasse além daquilo que eu penso sobre tortura psicológica e obsessão. Aquele velho ditado que diz "Quem procura acha!" é verdadeiro. Muito obrigada Raphael porque estou em curto, em surto por não ter lido o seu livro antes!

Ainda estou compelindo por cada cena que li, imaginei, reli e acreditei. Isso porque eu não imaginava que ficaria ao lado do Téo, um jovem médico, que divide o seu tempo entre a universidade e cuidar de sua mãe, o que requer toda a atenção, porque a alguns anos ela sofrera um acidente de carro. As percas foram inevitáveis, Téo ficou órfão de pai e para completar sua mãe perdeu a sensibilidade e os movimentos das pernas. Seis anos depois do acidente, ele é o único homem da casa, de quem sua mãe sempre tivera orgulho.
Não é à toa que o garoto se empenha em estudar medicina. Apaixonado pela anatomia e fisiologia humana, tem um gosto para amizades um tanto peculiar, sua melhor amiga se chama Gertrudes, você deve estar a se perguntar: -Qual o problema nisso? Calma, não tem problema nenhum em ter um amigo com quem se possa contar, muito menos se este for um cadáver. Isso mesmo. Vocês entenderam...

Téo apesar de educado e estudioso sempre guardou um certo rancor pelo modo como os seres humanos se relacionavam, ele acreditava que toda retribuição de afeto e intimidade entre os relacionamentos eram superficiais demais. Talvez, seja esse um dos motivos por ele possuir afinidade com pessoas mortas! Nunca foi um homem de muitos amigos, nem mesmo na infância.

Não gostava de ninguém, não nutria nenhum afeto para sentir saudades: simplesmente vivia. Pessoas apareciam e ele era obrigado a conviver com elas. Pior: era obrigado a gostar delas, mostrar afeto. Não importava sua indiferença desde que a encenação parecesse legítima, o que tornava tudo mais fácil.

Sempre prestativo com a sua mãe, ele é obrigado a ir em um churrasco. Sem muitas expectativas ele a acompanha e o inesperado acontece! Uma garota de sorriso largo e libertino lhe chama completamente atenção, seu nome? Clarice. Nome de anjo, como ele mesmo imaginara. Apresentando-se de forma inexperiente e inoportuna, Téo irá cometer grandes erros. O seu lado oculto é despertado e ninguém imaginaria do que ele seria capaz. Obsessão, submissão e tortura psicológica são pontos chaves para desvendar quem é o vilão ou o mocinho dessa obra. Mas, e se o autor te fizer ficar ao lado do vilão? Seriamos nós, os culpados pelos delitos mais graves cometidos por uma parcela de nossa sociedade?

Dias perfeitos é uma obra que tira o leitor da zona de conforto. Um livro agoniante e viciante tornam-se a descrição perfeita para quem deseja iniciar a leitura de um triller psicológico. De inicio pensei que se tratava de um romance policial que mesclava obsessão e possessão, mas ao decorrer da leitura somos postos  à prova: Quem devo julgar? Em quem confiar? Como é possível uma mentira se tornar verdade?

Quem nunca se apaixonou sem ser correspondido? Quem não gostaria de mostrar que poderia ser diferente, que a história de amor poderia dar certo? Ele apenas fazia o que todos já tinham desejado fazer. Havia criado para si a chance de estar próximo de Clarice, de deixar que ela o conhecesse melhor antes do “não” definitivo”. Era ousado e corajoso.

Pasmem! A obra apesar de sombria e pesada, tem um ritmo de leitura acelerado. Em pouco mais de três horas consegui terminar o livro! E o final é surpreendente. Não há como não associar algumas cenas ao livro Garota exemplar. Os cenários mesclam uma ambientação de calmaria e pavor, e na obra encontramos: praias desertas, chalés, hotéis caros como também motéis que deixam outros ambientes no chinelo.

Apesar da obra ser narrada de acordo com os pensamentos de Téo, eu não o definiria como primeira pessoa, pois há vozes por traz do garoto que acabam afetando a sua própria voz. Toda a diagramação se adequa ao livro como um todo. Fiquei intrigada, inicialmente, com a capa. Pensei que iria tratar de algum enredo clichê, envolto de romance policial, mas não tem nada haver! Compreendi o cenário da capa nos capítulos finais.

As temáticas mais recorrentes no livro Dias Perfeitos são: tortura, obsessão, compulsão, vícios como também transtornos psicológicos e patológicos. Outro ponto forte são os vínculos e laços maternais que ora são enfatizados na visão das personagens principais, Téo e Clarice; como também na visão de suas mães Helena e Patricia.

Não tenho palavras para descrever as sensações que senti durante a leitura, quem leu sabe do que estou falando. E quem não leu, precisa sentir na pele. Apesar de fortes, são viciantes! Por este motivo que irei ler outras obras do autor (apesar de ter ficado com um medo enorme dos seus livros e do modo como ele aprofunda os personagens), porque fiquei do lado de quem não devia (surtando com isso!).

Recomendo a obra para aqueles que ainda não conhecem a escrita do Raphael, como também aqueles que acham que conhecem a mente humana. É uma leitura convidativa para quem quer iniciar leituras que trabalham com o Thriller psicológico e aqueles que são fissurados por literatura policial.

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